Entre o atendimento médico e o palco

“Sempre transitei entre três e cinco atividades profissionais”

 

Sem nenhum médico na família – e mesmo sem muito conhecimento sobre Medicina – a escolha de Manuel Mindlin Lafer pelo curso foi intuitiva. Prestes a prestar vestibular, a dúvida pairava entre Física e Psicologia. O padrasto lhe aconselhou a cursar Medicina, para atuar como psiquiatra, sob o argumento de que assim poderia receitar remédios aos pacientes, o que não seria possível na Psicologia.

Conselho aceito, Lafer entrou para a Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), mas, já nas primeiras semanas do curso, decidiu repensar a especialidade médica em que iria atuar, mediante as diferentes possibilidades na carreira.

Em paralelo, o gosto pela música sempre existiu. Sua mãe tinha muitos discos e, cedo, adquiriu o gosto por ouvi-los. “A música está presente em mim desde as minhas primeiras lembranças”, recorda. Aos 14 anos foi fazer aulas de violão, juntamente com a irmã mais velha, Inês. Canhoto, aprendeu a tocar como destro, e logo começou a compor suas primeiras músicas. “Fiz muitas canções nessa época, talvez porque na adolescência somos menos críticos”, diz.


Talento musical

Manu – como é conhecido no meio artístico – não pensou na música como uma profissão, pois queria estudá-la sem que fosse um compromisso. “Havia duas coisas que eu não queria na vida: ser músico profissional, nem amador”, diz o médico, atualmente também cantor e compositor.

Depois do terceiro ano de Medicina, conseguiu conciliar a faculdade com aulas de harmonia e teoria musical, pois queria voltar a se dedicar à música. Formou-se em 1997 e escolheu a Pediatria para a Residência. Depois disso, especializou-se em Infectologia Pediátrica.


Índios do Xingu

Em 1995, ainda como estudante, teve a primeira oportunidade de trabalhar com índios, durante as diversas viagens que fez para o Xingu (MT) e para a Amazônia. Depois de formado, começou a atender no Am­bulatório do Índio da Unifesp, onde realizou diversos trabalhos de campo em áreas indígenas.

Lafer diz que existem muitas dificuldades em se trabalhar com índios, já que as verbas destinadas à Fundação Nacional da Saúde (Funasa) – órgão do Ministério da Saúde responsável pelos índios – são muito pequenas. Apesar de todos os desafios, o atendimento aos indígenas é uma grande paixão. “Os índios são muito diferentes uns dos outros, mas todos nos recebem muito bem. Você dá um presente para eles e lhe retribuem com três; você dedica um dia inteiro para eles e, se necessário, eles viajam para lhe ver. É como se estivéssemos sempre em dívida com eles”, conta.

Em 2007, teve a oportunidade de viajar para a Universidade da Columbia, em Nova York (EUA), onde ficou por dois anos. Teve outra passagem por lá como pesquisador na Food And Drug Administration (FDA), Maryland (EUA), próximo a Washington. “Essas cidades têm um forte cenário musical e tive oportunidade de assistir a muitos shows e musicais”, relata. Isso fez com que se tornasse fã do cancioneiro norte-americano, incluindo musicais, big bands, filmes, rádio, jazz e pop do final dos anos 1950 até os anos 70.

Atualmente, no Ambulatório da Unifesp, cuida dos índios que vêm até São Paulo para tratamento especializado, e também dos que residem em áreas próximas da Capital, mas não conseguem atendimento em prontos-socorros.

Lafer também trabalha no setor de pesquisa do Hospital Albert Einstein e presta atendimentos à população carente no Centro Assistencial Cruz de Malta. “Gosto desse envolvimento com quem realmente precisa”, declara.


O músico Manu

A carreira internacional de cantor e compositor de Lafer é mantida concomitantemente com a de médico. “Sempre transitei entre três e cinco atividades profissionais”, diz ele.

É autor de mais de 300 letras, 100 delas gravadas. Em 1995, começou a divulgar seu trabalho e, em 1997, mesmo ano de sua formatura, lançou seu primeiro CD. Soma, até o momento, nove álbuns autorais. Entre suas performances, trabalhou com Danilo, Nana e Dori Caymmi, Lincoln Olivetti e Ná Ozetti, entre outros. No exterior, apresentou-se no Festival Águas de Berlim, e trabalhou com os guitarristas John Piz­zarelli e Howard Alden, e outros músicos consagrados.

A música está nas raízes mais antigas de sua árvore genealógica. Parte de sua família, natural de Odessa – ilha entre a Ucrânia e a Rússia –, fugiu para os EUA, e muitos de seus primos tocam algum instrumento. Entre eles, há um primo que tornou-se um conhecido violinista, Bruce Molsky, além de uma tia que é cantora lírica.

Artistas como Chico Buarque e Caetano Veloso, que ouve desde a infância, Gilberto Gil, Jorge Benjor e João Gilberto, de quem é grande admirador, são referências para sua música. “Na minha época, o João já não fazia muitos shows,­ mas quando eu sabia que haveria três dias de apresentações, ia aos três”, lembra orgulhoso. Também gosta de nomes do samba antigo, como Noel Rosa e Geraldo Pereira, que fazem parte de seu repertório.


No palco

Lafer, com seu violão personalizado, projetado por um engenheiro alemão, mostra talento e autoconfiança atrás do microfone no palco. Ele está em turnê para o lançamento de seu novo álbum Um lado meu que você não conhece. Durante o show, divide o palco com o parceiro Dori Caymmi, com quem produziu o disco. Juntos, emocionam, arrancam risadas e aplausos da plateia.