Participação como co-autor e prefaciador de “Curar”, livro concebido como Manual de Saúde dos índios Maxacali, foi coordenado pela Professora Maria Inês de Almeida e escrito pelos próprios índios e publicado em 2008.

Prefácio

O Livro de Saúde Maxacali, que pode ser lido como três livros, conforme sugere a disposição em três
colunas e que segue o pensamento da escritora portuguesa Maria Gabriela Llansol, é o resultado de
um trabalho coletivo que partiu da necessidade de apresentar a Saúde dos Maxacalis aos profissionais
das equipes de saúde que os assistem, fornecendo um Manual, tal qual os do Ministério da Saúde, que
nos auxiliam a tratar tuberculose ou doenças respiratórias em geral ou a vacinar, entre outros assuntos,
através de condutas e orientações embasadas e ao alcance dos recursos disponíveis na ponta da rede
pública de saúde.

Seus autores são os próprios Maxacalis, que foram escolhidos pelas lideranças das diversas aldeias e
demonstraram competência e perseverança para iniciar sua formação acadêmica, num projeto inserido
numa parceria assídua e frutífera com a Universidade Federal de Minas Gerais.

A finalidade é prática: mostrar a cultura do grupo, o que se deve ou não se deve fazer, o que se pode
ou não se pode fazer, nas situações que se apresentam no dia a dia da tribo e da assistência, tais como
o parto, os cuidados com o corpo, as dificuldades de um eventual tratamento fora da aldeia (e nós,
brancos, que herdamos os nossos hospitais das Cruzadas, que fizemos deles leprosários e hospícios,
onde os freqüentadores iam para morrer ou para serem excluídos da sociedade, devemos ouvir
atentamente as preocupações com esta mudança de ambiente de tratamento).

Saúde, ou Manual de Saúde, é um termo aqui adotado como visão não só de saúde, mas também de
doença, inserida na cultura e na língua – cuidadosamente transcrita na primeira coluna, aqui
denominada “paisagem” – do grupo, moldadas num conhecimento sólido de utilização de folhas e de
raízes e de cantos e formado ao longo de incontáveis gerações, diariamente renovado em rituais
coletivos e privados, que avançam em conteúdos que a princípio não relacionaríamos com o
tratamento de doenças, mas que depreendemos da leitura, como a música e a religião. Graças à língua,
garantimos o acesso ao pensamento original, e a fidelidade ao conhecimento transmitido.

Um índice de temas médicos na terceira coluna orienta a leitura das demais, funcionando como um
índice remissivo, ou talvez como uma interface de internet, conforme o gosto do leitor. O enfermeiro,
o médico, o auxiliar ou o odontólogo, vai poder procurar no livro onde está o verbete sobre cárie,
sobre puerpério, sobre malformação congênita ou sobre picada de cobra, ou mesmo sobre a
importância de restringir o banho e o corte de cabelo em algumas situações.

Este índice, ou esta interface, procurou respeitar a complexidade e a originalidade do texto: não
quisemos fazer interpretações, substituir os nossos termos pelos termos indígenas nem vice-versa,
pois palavras e idéias de culturas diferentes não fazem exatamente sobreposição, mesmo quando
falamos de “religião”, um termo que a atividade missionária levou aos Maxacalis, levando mais
provavelmente a intersecções ou exclusões, conforme a comparação com a teoria dos conjuntos
matemáticos.
É natural que a este Manual sucedam outros, e que outras Universidades e outras tribos indígenas, e
talvez os setores públicos da Saúde e da Educação sigam este bem sucedido exemplo.

Manuel Mindlin Lafer
(Médico do Ambulatório do Índio da Universidade Federal de São Paulo – UNIFESP).

Textos revisado por Márlio Silva