Um encontro, Dois prazeres – Avô e neto se encontram para uma conversa informal.

O empresário e bibliófilo, José Mindlin e Manu Mindlin, filho do Ministro Celso Lafer, falam sobre os CDs que lançaram recentemente. Durante a entrevista, concedida aos professores da UnB, Soraia Silva e Ricardo Araújo, avô e neto discorrem sobre os prazeres da música e da poesia. Manu fala sobre o seu processo de criação musical e suas influências. José Mindlin revela o seu gosto pelos livros e defende a popurarização da leitura em voz alta que, na sua opinião, dá um relevo no texto que a simples leitura não chega a dar.

Qual é a relação da composição de suas músicas com a poesia?
(Manu Mindlin) – O CD é poético, mas contém músicas que ouvi. Embora tenha lido muita poesia, ela não aparece muito no CD. Ele tem a influência mais da música brasileira. Desde os 14 anos praticando a música, o disco foi uma primeira oportunidade de mostrar o trabalho de compositor. Fiz muitos shows em circuito amador, em faculdades e em bares noturnos. Eu tentei montar um conjunto, mas achei mais fácil fazer um disco. Eu acredito que o trabalho de compositor é mais importante. Comecei tocando violão, mas antes disso já tinha o hábito de ouvir música. A idéia de uma música ajuda a procurar a letra e a idéia de uma letra ajuda a procurar uma música.

O Manu disse não tem o hábito de ler tanta poesia como ele lê prosa, o que o senhor acha disso Dr. Mindlin?
(José Mindlin) – Acho que se ele não lê muita poesia ele não sabe o que tá perdendo! (risos). Ele realmente já leu uma quantidade respeitável de obras em prosa, e eu acho que ele lê também poesia, e gosta, apesar de ele dizer que lê menos, de modo que foi uma brincadeira. Ele sabe o que qualquer um perderia não lendo poesia. Agora, prosa e poesia no fundo não são coisas tão diferentes uma da outra, ambas são expressão de boa literatura, apenas em poesia, de modo geral, existe um ritmo que poucas obras em prosa tem. Mas eu acho que ele, nas suas composições, apesar de ser aparentemente em prosa, compõe prosa poética.

(Manu) – Eu estava comentando que a influência maior é de música e não do ritmo, o que tem letra de música parece mais com letra de música que com poesia. Se puser só a letra lá ela não fica tão bom quanto na hora que ela ganha uma melodia. A melodia foi feita junto com a letra, ela não foi feita para ser lida como poesia, ela foi feita para ser cantada.

(José Mindlin) – Mas aí a forma poética é usada para uma prosa que tem conteúdo emocional, ou que provoca emoção. Que tenha suavidade ou lirismo, ou até uma coisa que tenha caráter mais épico. Há discursos abolicionistas que parecem verdadeiros poemas épicos. Então creio que não há uma distinção rígida entre uma coisa e outra. Há livros de prosa, clássicos na primeira metade deste século, que são pura poesia em prosa, tem-se a sensação de estar ouvindo uma pessoa com sentimento poético. As composições do Manu tem bastante caráter poético, ele não pôs nada em suas composições que seja rigorosamente não poético, como se fosse uma coisa humorística ou política, é o lirismo… e aí é difícil dizer o que predomina. Mas ao meu ver acho que ele tem razão quando diz que a base mesmo é a música. Essa música poderia não ter letra e ser bonita mas essa letra sem a música não teria o mesmo sentido, não provocaria a mesma emoção do ouvinte.

(Manu) – A referência do trabalho, a inspiração, por mais que eu goste de poesia, são os outros compositores: Caetano, Gil, Chico Buarque, do que de Drummond, do Manuel Bandeira. Por mais que eu goste do trabalho deles, é diferente o ponto de partida. Muita gente confunde letra de música com poesia, mas se você se basear não só no que eu digo, mas no que as pessoas dessas duas atividades dizem, elas são coisas bem diferentes.

E o que você acha de cada um desses compromissos que você citou aí, qual o aporte de cada um para tua música por exemplo?
(Manu) – Os que eu citei são todos muito complexos. Todos tem formação e refinamento, tanto na letra como na criação de harmonia e melodia na parte mais musical. A gente tem o hábito de valorizar uma parte do trabalho de cada um. Então Chico Buarque todo mundo só fala dele como letrista, e ele tem uma capacidade e originalidade como harmonizador que os outros não tem, que é dele. Acho perigoso dizer que cada um traz uma coisa, porque da mesma forma que como a gente aproveita o que tem como letrista aproveita o que ele tem como harmonizador, como ele inverte os acordes e cruza a linha de baixo.

(José Mindlin) – E é preciso ter muito cuidado com jornalista quando se fala se preverência ou de gosto específico de um compositor ou outro, porque ele está querendo extrair uma opinião que amanhã pode provocar um sério incidente diplomático. Se você dissesse por exemplo: eu gosto muito mais de Caetano do que do Gil, em primeiro lugar não seria verdade, assim como você não pode dizer: gosto muito mais do Gil do que do Caetano. Então o mais prudente é falar em tese sem mencionar nomes. Eu creio que não exista um artista absolutamente que atenda a todas as possíveis reações emocionais.

(Manu) – A gente precisa de todos eles!

(José Mindlin) – Com exceção daquilo que é reconhecidamente mau, se eu tentar compor uma música sai uma droga! (risos).

(Manu) – Acho importante quando se fala no Chico Buarque lembrar que ele é um grande letrista, mas não é só um grande letrista. E o Gilberto Gil ele não é só um compositor de ritmos originais, tocando de maneira original, ele também é um grande letrista. As vezes os grandes artistas ficam conhecidos por uma característica que chama mais atenção e a gente acaba não aproveitando outras coisas que eles tem para oferecer. Isso também acontece com Jorge Bem, dizem que ele tem um ritmo muito dançante e eu acho que ele é muito original, com letras muito bonitas, rimas bonitas.

Manu o que você achou do Prazer da Poesia?
(Manu) – Eu gostei muito do prazer da poesia! Gostei muito, é uma leitura que emociona muitas vezes, e faz um painel grande de poesia brasileira deste século. Apesar de ter tido um critério de seleção de não pegar poetas que ainda estejam em atividade.

(José Mindlin) – É aí foi o cuidado que eu tive, porque se eu pusesse poetas vivos, e havendo um limite no CD, teria que deixar a maior parte de fora, incluindo somente alguns, e os outros perguntariam porque ele e não eu. Então fazendo só de poetas mortos isso simplificaria as coisas, embora haja muitos poetas mortos bons, de quem eu gosto e que não foram incluídos. Só que estes não podem fazer a pergunta.

E como é que se deu a seleção?
(José Mindlin) – A escolha foi realmente por gosto e levando em conta a imperiosa necessidade de me ater aos limites do CD. Com exceção de A Vista de Drummond, que é um poema que eu gosto muito, evitei outros poemas longos para poder incluir no CD um número maior de poesias, então a maior parte das poesias é curta.

Como surgiu a idéia de fazer um CD de poesias faladas?
(José Mindlin) – Foi um convite da rádio Eldorado. Porque eu, em uma entrevista a propósito do livro que eu tinha publicado, onde eu conto vários aspectos de minha vida e de minha relação com a literatura e com os livros, eu dizia que ler poesia em voz alta era um gosto antigo que eu tinha. A poesia tem, pelo menos em parte, a natureza de uma partitura, cuja beleza só apacere quando a partitura é executada.

(Manu Mindlin) – Acho que é uma contribuição, uma troca entre as gerações,porque na sua geração as pessoas tinham o hábito de leitura de poesia, sobretudo de derocar poesias, declamar poesias, que é uma coisa que hoje ficou perdida. Hoje você não consegue decorar as coisas, porque as coisas passam, fluem mais. Não se tem a tradição de grandes poetas.

(José Mindlin) – Mas o que se fazia nas décadas de 30, 40 e 50 era uma declamação muito teatral, dramática e muito enfática onde a figura de quem está lendo sobrepuja o próprio texto. E isso ao meu ver não é uma boa coisa. Na leitura o que tem que aparecer é o texto e não o leitor. Agora eu acho que isto está recomeçando a surgir: o interesse por leitura em voz alta. Há vários CDs publicados de textos falados. Coisa que os Estados Unidos e na Europa já existem há bastante tempo, e no Brasil se está recomeçando a fazer.

Dr. Mindlin o que senhor achou do CD do Manu O Baião da Flor?
(José Mindlin) – Eu gostei muito, a começar pelo nome. Agora, eu tenho uma vantagem do ponto de vista de apreciação musical, de ser muito ignorante, de modo que aquilo que um especialista poderia dizer: isto não está bem feito, não atende a determinadas regras de composição, comigo não pode acontecer, quando ouço eu gosto ou não gosto. Tenho a impressão que no caso do Manu eu estou gostando de uma coisa que atende as regras da poesia e da composição. Do CD eu gosto muito e só reclamei que ele levasse tanto tempo para mostrar para os avôs, para os pais e para muito mais gente, o gosto que ele tem e que manteve escondido durante anos e anos.

Quer dizer que foi uma surpresa absoluta?
(José Mindlin) – Absoluta surpresa. Só não sei que surpresas podem vir daqui por diante.

(Manu) – Acho que o trabalho não estava maduro para começar, o mais importante é procurar ter qualidade no trabalho. Agora ele está pronto para começar, por isso que eu não estava mostrando.

Manu como é essa sua divisão: ser médico e ser músico. Inclusive usando um nome para cada tipo de atuação. Manu Mindlin para o músico e Manuel Lafer para o médico?
(Manu) – A maioria das pessoas estranha o fato de eu ter escolhido dois nomes, um para cada atividade. Eu acho que para os médicos existe uma questão ética. Os grandes médicos que a gente admira tinham uma placa no máximo com o nome, dizendo que era médico. Porque fazer propaganda é uma coisa muito feia em um médico, além de anti-ético, quem vai ao médico deve estar com algum problema, não é porque está querendo se divertir. Acho que a propaganda do médico deve vir pela qualidade do trabalho dele. E o Manu Mindlin é o eu lírico.

Você como médico tem de alguma forma o desejo de curar as mazelas das pessoas. Você acha que a arte também pode curar?
(Manu) – Acho que não, Arte é tão importante quando a cura, mas ela é diferente. A arte é importante na maneira das pessoas se relacionarem consigo mesmas e com a vida delas. Mas acho muito distante a relação entre arte e cura. A arte com fins terapêuticos corre o risco de ser uma arte menor.

(José Mindlin) – Agora, que a boa música tem um papel terapêutico eu acho que tem. Me lembro de uma ocasião que sua mãe veio da fazenda com uma intoxicação séria e estava com 40 graus de febre. Estávamos muito preocupados e repentinamente ela começou a delirar, foi um susto. E não sabíamos o que fazer, aí eu resolvi pôr a Serenata Noturna de Mozart e ela foi se acalmando, deixou de delirar e a febre abaixou, e aí foi nitidamente a música que teve um papel terapêutico.

(Manu) – Aí pode não ter sido a música, pode ter sido o pai que foi o papel terapêutico.

(José Mindlin) – Um exercício ilegal da medicina.

Manu o que você acha do João Gilberto, ele trouxe o Samba do morro para a praia?
(Manu) – Ele trouxe o Samba de todos os lugares e levou para todos os lugares. João Gilberto é a maior referência que eu tenho. A música brasileira era uma antes dele e depois dele ficou outra. Não têm miutos artistas de quem se possa dizer isso. Ele é um criador e ao mesmo tempo ele não compõe a maioria das músicas que ele canta. Têm poucas músicas que ele compôs e gravou, como o Bim Bom e Ôba-la-la. Em uma delas se fala: “é só isso meu baião”, e ele é o nome da Bossa Nova. Mas isso já estava no início do trabalho dele. Ele é um criador, apesar de não compor as músicas, ele é um criador tão importante, tão forte, que ele nem precisa compor as músicas para ser o criador das músicas.

Dr. José Mindlin depois de Prazer da Poesia o senhor pretende fazer mais alguma coisa em termos de leituras poéticas?
(José Mindlin) – Isso depende mais da própria Rádio Eldorado, eles têm que considerar mais o aspecto econômico. Eu acho que se o CD tiver sucesso permanente, ele terá cumprido um papel de estimular outros a também fazerem CDs de poesia falada. O importante é generalizar o hábito de se ouvir a leitura em voz alta. Eu li muitas peças de Shakespeare acompanhando discos com textos falado, com peças gravadas, e eu fui lendo, e compreendi muita coisa que se eu não tivesse ouvindo eu não teria compreendido.